domingo, 4 de novembro de 2012

"Para Além do Tejo"

PARA ALÉM DO TEJO


 Nesta altura do ano, só vejo verde
Na planície, nos montes e nos chaparros.
Os olhos perdem-se na frescura
Que esta mesma Terra emana, quando tem sede.
Só me falta ouvir o chiar dos carros,
Aqueles que eram puxados por bois, na sua bravura.

Chamas-te, para Além
Dum Rio grande, imenso
E por vezes majestoso que fica aquém
E te deixa livre, terna e com senso.

A tua harmonia chega a incomodar,
Meu belo Alentejo, de tão perfeita,
De tão majestosa. Parece que é feita
De algo sobrenatural que nos faz sonhar.



Como consegues esconder a amargura,
O sofrimento e a labuta
Que restou de tanta luta?
Foi sangue e suor que fizeram a tua envergadura?

Desenhaste Poetas, Académicos e Navegadores,
Todos grandes e enormes trabalhadores
Duma Terra, em que a Liberdade
É uma palavra sofrida e cheia de verdade.

Continua assim, sempre para Além!
Transporta o teu futuro para os que te querem,
Para os que te entendem
E para os que se sentem bem.


Estoril, 13 de Abril de 2004

Francisco da Renda


Herança (com um toque especial)!



ALBERNOA

Rodeada pela esverdeada planície
A interessante aldeia (que foi escolhida
Por Manuel Ribeiro para ser o retrato
Bem realista do Alentejo no início
Dos anos vinte do século passado)
Percorreu nesta semana os noticiários
A nível nacional: os oitocentos e noventa
Habitantes sobrelevaram-se exigindo
Um médico em permanência recusando
A deslocação a Beja a pouco mais
De vinte quilómetros de distância.

Com oito habitantes por quilómetro quadrado
(Estando mais de metade no estatuto de ancião)
Não possui rede de transportes local mas com orgulho
Exibe um Centro de cultura e desporto, Centro
De convívio social e as secções de columbofilia
E tiro ao alvo da velhinha Casa do Povo.

Muita água tem corrido pela Aldeia e o modelo
Continua semelhante bem impresso
Na realidade social: lutadores,
Exigentes e dignos perante a desdita
Que secularmente os atinge.
Repudiam com ardor as medidas impostas
Por um Governo ausente que lhes esvaziou
As estruturas mas impotente perante o carácter
De quem, Sol a Sol, soube sofrer lutando.

Neste Portugal actual onde a apatia indiferente
Enoja quero abraçar esta Albernoa
Que o escritor chamou «Planície Heróica».

Lisboa, 23 de Outubro de 2008

Francisco da Renda