terça-feira, 20 de julho de 2010

A alvorada na minha vida

O meu amanhecer pode não ser o melhor do Mundo, mas é sem dúvida aquele que escolho para mim, para a minha vida.
O meu amanhecer é embirrento. O meu amanhecer é até irascível. O meu amanhecer tem o melhor abraço do mundo. O meu amanhecer não sorri mas faz o meu coração querer explodir de tanta felicidade. O meu amanhecer não me deixa cantar e quando o faço o seu olhar fita-me qual facas afiadas prontas a cortar-me as cordas vocais. O meu amanhecer é sisudo, é silencioso. O meu amanhecer faz-me querer acordar todas as manhãs.
O meu amanhecer és tu. Levanto-me a custo tentando resistir a um mundo que passa rápido de mais para mim. Levanto-me sem a mínima vontade de sair à rua, sem a mínima vontade de encarar as formas terríficas e medonhas que a face dos transeuntes que por mim passam assumem pelo simples facto de estarem acordados.
Levanto-me, sem querer.
Mas, assim que entras na cozinha e te encostas a mim e me cumprimentas com um silencioso rugido, ganho forças para enfrentar um novo dia. Ganho vontade de sorrir aos transeuntes que obstinadamente se arrastam pela vida, tentando, por tu existires, que sintam um pouco da felicidade que me ofereces. Quando te vejo todas as manhãs, a minha vida amanhece.
Quando te vejo todas as manhãs, amo-te ainda mais...
És tu o amanhecer que escolho para a minha vida. És o amanhecer que escolho para mim.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Voltei. Desta vez para assumir a minha ignorância relativamente a certas artes. Ou, talvez, para demonstrar simplesmente que não gosto de certas artes. No final, o leitor decidirá. Cá vai:
Cheguei há pouco de um espectáculo de ballet contemporâneo que teve lugar no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.
A coreografia é-nos trazida por Béjart Ballet Lausanne, sendo certo que a mesma foi criada por Maurice Béjart, quem, de acordo com a Wikipédia (razão pela qual advirto, desde já, para possível incorrecção, mas tendo em conta que este não é um artigo histórico, não me debrucei muito sobre tal questão), fundou Les Ballets de l'Etoile, mais tarde rebatizado de Ballet-Théâtre de Paris.
Nota histórica (breve) feita, vamos ao que de facto releva.
Aquando do início do espectáculo, era visível o prazer assumido pelos espectadores que, ansiosamente aguardavam pela entrada dos bailarinos. No Coliseu, apesar de os lugares não se encontrarem todos ocupados, ouviam-se as conversas que nos rodeavam, repletas de expectativas quanto ao evento que ali tomaria forma. Infelizmente (para mim, claro está), as minhas expectativas não eram muitas, dado que (assumo-o sem problemas), o ballet contemporâneo não é dança que me inspire. Continuando...
Os bailarinos reunem-se na escuridão do palco e, lado a lado, deitam-se no chão, cobertos por lençóis. Quando os vejo, penso: Aquilo é que era... Mas, bom... Começa a música: Queen. De imediato ocorre-me que talvez as minhas expectativas se frustrem, e este seja até um bom espectáculo. Pois bem. Enganei-me redondamente. Iniciaram a sua coreografia a andar no palco. Foi-me explicado que cada quadro de dança tem um significado. Mas foi explicação que não me satisfez (o mesmo é dizer que continuei a ver a coreografia sem lhe achar a mínima piada).
Efectivamente os bailarinos eram bons no que faziam. Eu é que via a coisa muito mal parada. Correcção: parada apenas. Mas não fazem ideia do quanto... Era de tal forma que o momento alto da noite, foi o meu sogro a espilrar... Não estou a brincar com os leitores cibernautas. Para que vejam a "loucura" da coreografia, havia partes em que os bailarinos coçavam a cabeça (cujo significado é obviamente "tenho comichão"). Mas mais... A coreografia era de tal forma empolgante, que a determinada altura entram dois bailarinos deitados numa maca, com as pernas entrelaçadas. Entretanto, na fila atrás da minha, uma respiração forte e profunda fazia-se ecoar pela sala de espectáculos que, aparentemente, se havia transformado em regaço apropriado para introspecção daquele atento e interessado espectador. De facto, nem os bailarinos em tronco nu, com os seus troncos torneados, eram susceptíveis de suscitar o interesse da minha desconhecida companheira de fila, de tal forma que, e relembrando os senhores leitores que se trata de ballet, a senhora batia o pé... Seria para tentar manter o ritmo cardíaco activo? Talvez...
A determinada altura surgem dois outros bailarinos rodopiando pelo palco dentro de duas esferas armilares. "Agora é que vai ser", pensei eu. PUMBAS!!! Enganei-me. Não aconteceu nada. No entanto, noto que há algo diferente desta vez. Quando me detenho sobre tal questão, reparo que o referido atento espectador que tão profundamente respirava, estava já a roncar. "Ah bom. Haja alguém que me entenda..." De repente, uma bailarina oscula levemente um outro bailarino. Agora sim, vai acontecer algo interessante. Mas não. Aliás, o feliz contemplado pelo beijo roubado pela bailarina, ficou de tal forma atónito que logo de seguida se sentou numa cadeira que, no decorrer da coreografia, foi posta em palco (não fosse algum dos bailarinos ficar cansado de andar...). Apercebo-me então, que haviam roubado o espectáculo ao La Féria: pegaram numa data de gajos e enfiaram-nos dentro de um cubo branco... "Olha a gaiola das loucas...". Subitamente, surge dos bastidores uma bailarina com o busto desnudado. "Ao menos isto", ocorreu-me (a mim e, atenta a reacção de alvorada da maioria dos homens presentes, não só). Mas, uma vez mais, nada. O bailarino que aguardava a chegada de tal desnudada bailarina, agarrou-se a uma almofada... "Ui!!! Está tudo estragado", pensei. No entanto, o regresso do figurino utilizado no início do espectáculo, fez despertar em mim a pouca energia que ainda me restava. Logo afirmei que o espectáculo estaria no fim. Mas, não... Decidiram reproduzir um vídeo que, ao que parece, mostrava o coreógrafo primitivo a dançar ao som de uma música de Queen. "Não saio daqui vivo...", foi o que mais rapidamente me ocorreu. Acaba o vídeo. Aplaudem os espectadores. Eu não... Eu tive medo! Sabem aquela parte final dos concertos em que se pede mais uma música? Era exactamente essa parte. Receei que um qualquer janado pedisse aos bailarinos que interpretassem mais uma música que fosse. Mas não. Fecha-se a cortina. De súbito, um foco de luz incide sobre o palco, e ilumina um bailarino. "Morri, e mandaram-me para o inferno", pensei. Afinal, e para meu enorme gáudio, era o coreógrafo que se vinha despedir e agradecer a recepção confortável e calorosa com que foi presenteado. Apagam-se novamente as luzes, e todos os bailarinos entram em palco novamente para saudarem aquele público. Quando se reacendem as luzes, reparo que metade das pessoas que anteriormente comentavam com grande prosápia e eloquência o rumo que tomaria aquele espectáculo, já se tinham ausentado. "Ora bolas - ocorreu-me - Eu que até nem tinha grande vontade de aqui estar, mantenho-me no meu lugar (és parvo, pensarão os leitores) para aplaudir o esforço e o empenho que os bailarinos depositaram naquela coreografia, bem como o profissionalismo e paixão com que nos banquetearam nesta noite, e os gajos da bazófia já se puseram a milhas... Ora bolas. Afinal, qual a atitude que se deve tomar relativamente ao novo? Fazermo-nos passar por entendidos e, inevitavelmente, acabarmos por fazer figura de parvos, ou, tentar manter um espírito curioso sem "negar à partida uma ciência que desconhecemos"?
Seja como for, a verdade é que o meu espírito curioso não me levou a lado nenhum, a não ser à certeza que ballet contemporâneo não é a "minha onda"... Eu é mais é bolos...
Admiro no entanto, o trabalho esforçado dos bailarinos que ali estiveram nesta noite. Não me interpretem mal. Para quem gosta, admito que seja extraordinário. Eu é que não gosto, simplesmente.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O meu sax e eu

Durante a semana passada, eu e a minha cara metade caminhávamos com direcção ao nosso lar. Entretanto, nem me lembro bem porquê, encetámos uma conversa sobre o mundo das artes. Já sei porquê. Falávamos de pessoas que cantam extraordinariamente bem, mas que, sem prejuízo de tal dom, têm de viver dos musicais do Filipe La Féria, caso queiram efectivamente prosseguir um percurso na carreira artística.

Mentira. A conversa começou por eu ter dito que não me importaria de fazer vida da música. De facto, cada vez mais gosto do som do saxofone e, apesar de estar ciente que me falta "comer muito feijãozito", estou determinado a aprender a tocar em condições e, quem sabe, daqui a algum tempo, tornar-me profissional da coisa.

Nem mais. A conversa começou por aqui mesmo. Sonhos à parte, rapidamente retornámos à realidade e apercebemo-nos da triste condição de um profissional das artes. E foi exactamente nesse momento que constatámos que quem sabe cantar vive dos musicais do La Féria, que, by the way, é o único encenador em Portugal a apostar em musicais.
Comecei, como é óbvio, pelos "actores" dos Morangos com Açucar, essa série que marcou uma geração. De facto, "faz-me espécie"... Será que a nossa comunicação social vive tão arredia de princípios? Raros são os "actores" que são bons. Mais: o argumento da coisa, valha-te nossa senhora. Mas será que não há escritores e actores em Portugal dignos de serem aproveitados logo desde a Universidade? Será que apenas nas agências de modelos (que conforme o próprio nome indica, contrata modelos), existem "actores"?

Quantos e quantos estudantes de teatro, de cinema, etc., etc., provenientes de Faculdades, Conservatórios, e afins, não existirão prontos para embarcar em projectos que os possam envolver e dar azo a que apliquem todos os seus conhecimentos e ensinamentos?

Mas não. Vamos ali à Elite Model Look, buscar um "actor". Melhor: vamos buscar uma "actriz", daquelas que vendem saúde... Isso sim são "actrizes". Agora lembrei-me de uma piada de um amigo, mas se calhar não vou contar...

Esta situação verifica-se também na música. Instrumentistas exímios, que tocam desde os 4 anos de idade; cantores insignes que a dormir cantam melhor que os "Perfume", que apenas passaram na Rádio por terem "cravado" o Rui Veloso (a sério, retrato minimal????), que são obrigados a viver de casamentos aos fins-de-semana onde tocam o "apita o comboio" apenas porque o mercado só tem lugar para os músicos portugueses que nem uma frase sabem escrever correctamente. Não condeno estes gajos. Vão atrás do dinheiro. Mas será que não há espaço para quem efectivamente percebe da poda???? E não me digam que gostam dos "Perfume", porque eu não acredito. Nem as mães dos gajos gostam.

Fico honestamente triste, por este nosso País (e por isto quero significar os seus habitantes) ter tantas reservas quanto à qualidade dos seus ilustres desconhecidos e depois apoia os Morangos com Açucar. Não digo que estes não sejam necessários. Porque são. Vejam o exemplo da minha sogra: não gosta de morangos au naturel. Não fora o açucar, e não comeria Morangos.
Mas outros exemplos poderiam ser nomeados. Aliás, segundo consta, o curso de jazz do Hot Club Portugal não é reconhecido pelo Ministério da Educação. Não encontro razão para isto, tendo em conta a qualidade do curso, mas mais do que isto, forma verdadeiros músicos.
Enfim. Seja como for, com ou sem Portugal, continuarei a alimentar este sonho que acalento há muitos anos, e continuarei a lutar pela minha continuação no Saxofone.

Quem sabe se daqui a uns anitos não me encontrarão num bar a ... ser feliz!!!



sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Na nossa rua...

... Eu era o maior aventureiro do mundo...
Nunca gostei de brincar em casa. Sempre preferi descobrir os segredos da minha rua.
Todos os fins-de-semana o meu programa era o seguinte: acordar às 06:30 / 07:00; descobrir uma caixa de Chocapic que aguardava ansiosamente as estórias que me esperavam nesses dias; encher uma taça inteira com esperança e expectativa; degustar a aventura que num trago de leite imaginava; acordar o meu maior amigo da altura, que vivia no mesmo prédio. Castelo, digo...
Acordado que estava o meu fiel escudeiro, ou o meu honroso cavaleiro, a nossa imaginação era o limite.
A nossa rua não era grande o suficiente para conter os sonhos de duas crianças imaginativas e criativas. A casa abandonada que existia na praceta onde morávamos era apenas o ponto de partida para cada fim-de-semana que ambos passámos. Ali fomos Reis, ladrões, piratas, cavaleiros... Ali espetei um prego de 30 centímetros no pé por estar a fingir que a nossa caravela se estaria a afundar, fruto das balas de canhões de que fomos vítimas no último ataque das forças do mal, que existiam unicamente nos nossos fins-de-semana. Naquela casa abandonada salvámos Princesas, dragões, e outros amigos que apenas nós conhecíamos e que apenas a nós importavam.
Nunca gostei de brincar em casa. Sempre preferi descobrir os caminhos recônditos da minha rua.
Sempre aguardei com expectactiva que o meu vizinho Rui me viesse bater à porta com informações sobre a nossa aventura para esse fim-de-semana.
Por vezes não haviam novas aventuras, o que era já de esperar, uma vez que no fim-de-semana anterior não havíamos conseguido salvar a Princesa que supostamente deveríamos ter resgatado das garras de um qualquer feiticeiro malévolo. Por vezes, tal salvamento não se havia concretizado porque outros grandes aventureiros da nossa rua se juntavam para uma rápida partida de futebol de 4 a 5 horas. Outras vezes, a nossa Princesa imaginária ficou apenas à espera que, dentro de uma casa abandonada com as paredes caídas, eu e o Rui conseguíssemos escapar com vida (ou pelo menos sem pregos ferrugentos no pé) das inúmeras armadilhas que surgiam nas divisões aparentemente inexistentes da nossa casa abandonada.
Certo dia, a nossa casa abandonada foi destruída e deu lugar a um vazio imenso nas nossas imaginações. Felizmente, o Rui sempre teve jeito para construir lembranças e memórias como aquelas que hoje relato e partilho. Da construção, restou um pequeno triângulo de terra batida que durante anos, fez as nossas delícias e nos criou outras memórias. Nesse triângulo fomos corredores mundialmente famosos. Conduzimos por curvas que estão apenas ao alcance do mais louco corredor de naves espaciais. Ultrapassámos obstáculos que não podem sequer ser imaginados pelo comum dos mortais. Nesse pequeno triângulo, fomos mais verdadeiros do que o que somos actualmente.
Era eu pequeno, e uma casa abandonada todos os dias me acordava para os meus sonhos...
Rui: a nossa Rua, o nosso Reino... Obrigado.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Há dias assim...

Aguardo com expectativa a minha vez para que uma médica da era Guerra Fria me traga boas novas. Em redor olho a azáfama silenciosa e de semblante carregado de qualquer vulto que por aqui transite. São às dezenas as pessoas que por aqui passam justificadas pelo receio de lhes ser dito que as suas entranhas estão a envelhecer. Terão as pessoas medo de estarem doentes ou apenas medo de envelhecerem? Nunca reflecti sobre isso. Tento não pensar. Apenas vim pois quero conhecer se padeço de algum mal que possa encurtar a minha presença junto de quem mais amo. Apenas venho porque quero prolongar a minha estadia nos corações de quem me toca; porque quero tocar os corações de quem está perto de mim, da minha alma.

Confesso que perco bastante tempo a observar as pessoas. É com agrado que verifico que as pessoas não são tão egoístas quanto por vezes pensamos. Prova disso são as urgências de um qualquer hospital. Mais, prova disso são as partidas e as chegadas de um aeroporto. Basta ver o semblante que os que ficam carregam e, à chegada dos que partem, o amor que quem ficou tem para lhes entregar numa bandeja.
Tenho no entanto um ou outro acto de egoísmo. Gosto por vezes de estar sozinho, na minha sala, a média luz, acompanhado por um copo de vinho e um cd de jazz. Não. Não tenho a mania que sou intelectual. Gosto apenas de observar a serenidade dos meus pensamentos calmos e repletos de cor ao som de jazz. No fundo, gosto de ocupar a minha mente com o silêncio pacífico que o jazz me obriga a alcançar, esboçando leves sorrisos pelo caminho.

Devem os leitores exclamar: este gajo é parvo!!! Sou um pouco, mas não é por isso que escrevo. Escrevo porque penso e penso porque existo. Esta última não é de minha autoria mas cabe perfeitamente no conceito que me assola quando me encontro no meu sofá, a média luz, com um copo de conteúdo rúbeo e prazeroso, e um álbum de Miles Davis (ou de Coltrane, sim...).
Na realidade, creio que não me importe de envelhecer desde que sempre rodeado por quem amo, acompanhado de um bom álbum de jazz, e um bom copo de vinho. Acho até que apenas me sujeito a esta espera infindável para poder ouvir que vou poder envelhecer, tal como planeio fazer...
A vida vive-se ao ritmo do bater de um coração apaixonado pela viagem da imaginação no quotidiano...

domingo, 8 de novembro de 2009

Uma questão de mentalidade

Li há pouco um artigo numa daquelas revistas semanais, cujo nome não revelo por não me ser paga a publicidade, podendo no entanto adiantar que a capa não é feita pela Lili Caneças, pela Bibá Pita, nem mesmo pelo Cláudio Ramos (pasmem-se os leitores...).
Do referido artigo constavam as seguintes informações:
- População: 2 milhões;
- Emissões de CO2 per capita: 7,47 toneladas;
- Consumo energético per capita:48,65 GJ (gigajoules);
- Percentagem de energia renovável consumida pela cidade: 9,69%;
- Percentagem de cidadãos que caminham até ao trabalho ou usa transportes públicos: 66%;
- Consumo anual de água per capita: 87,12 m3;
- Quota de lixo reciclado: 7,11%.
São estas as informações constantes que permitirão avaliar da atitude dos portugueses, em particular os de Lisboa, relativamente ao meio ambiente.
Transcrevo agora um parágrafo que refere que "a geografia da cidade, o clima e a actividade económica não compensam as pobres políticas de transportes, de qualidade do ar, de uso da água e do solo e de gestão dos resíduos urbanos".
E tanto assim é que, e no que concerne aos transportes públicos em particular, Lisboa é das capitais europeias cuja qualidade do ar é a pior, consequência do número excessivo de veículos particulares que diariamente poluem o ar na capital de Portugal.
Mas coloco agora a seguinte questão: já passou pela cabeça de dirigentes políticos, de altos cargos de empresas públicas e privadas, etc., questionarem-se do porquê de assim ser?
A verdade é que, efectivamente, as ligações existentes entre Lisboa (cidade) e os "subúrbios" é efectivamente precária.
Posso dar-vos como exemplo a minha família: não morava eu em Lisboa, e eu e toda a minha família (nuclear) entrávamos em Lisboa no nosso automóvel. Claro que o fazíamos todos no mesmo carro, mas fazíamo-lo. E, de facto, era mais rentável virmos todos no mesmo automóvel, do que pagar cada um Eur. 50,00 pelo passe mensal. É certo que se trata de um veículo que consumia muito pouco. Mas, não obstante, era mais rentável.
Posso dar-vos outro exemplo ainda mais gritante: tenho um amigo e colega, que, no início do estágio da Ordem dos Advogados, diariamente entrava em Lisboa de comboio, vindo da outra margem, sustentando um passe mensal pela módica quantia de ... adivinhem... Eur. 100,00...
Ora, como a maioria deve saber, o estágio da grande parte dos candidatos a advogados não é remunerado. Mas já nem vou por aí. Num país em que o ordenado mínimo ronda os Eur. 450,00, quer parecer que um passe mensal deste valor se torna consideravelmente elevado, tendo em conta, que é ainda necessário fazer face a tantas outras despesas obrigatórias.
Na realidade, considero que as linhas de transportes públicos devem ser melhorados. Mas considero também que tal não seja feito ao abrigo da ganância capitalista e tendencialmente desumanizada...
Pois, na verdade, todos sabemos que sempre que são melhoradas vias de comunicação, os preços que pagamos por serviços que são já elevados, ficam ainda mais caros.
Concordo que tenhamos de pagar pela inovação e melhoria de qualidade de vida. Não concordo que tal seja feito em prol de aumento de património pessoal de "certos e determinados" directores...
Mas enfim... Não podemos também culpar "os vampiros" por tudo de mau que acontece neste país. De facto, o nosso problema é um problema de mentalidade, aliás, como amplamente consta documentado. Mas apesar de todos nós sabermos isso, continuamos na mesma...
Há uns dias eu e a minha namorada apanhámos um táxi para regressar a casa. Taxista que se preze, percebe tudo sobre tudo. Perdidos entre conversas políticas e sociais, lá disse o taxista: "Eu acho bem que as pessoas que têm carro o tragam para Lisboa. O carro é meu, e eu faço o que eu quiser com ele...". Óbvio que momentos antes o motorista havia dito: temos de mudar as nossas mentalidades...
De facto, enquanto não estivermos dispostos a negar-nos certos luxos, o mais provável é os nossos netos e filhos destes não terem Planeta Terra para habitar. Nessa altura, espero ouvir o senhor motorista dizer: O filho é meu, e eu faço o que eu quiser com ele... Inclusivamente tirar-lhe a natureza e um planeta para habitar...
Lugares comuns à parte, temos mesmo de alterar mentalidades...

sábado, 7 de novembro de 2009

Os valor€s que nos movem...


Se porventura visitarem o meu perfil (não existindo qualquer fundamento válido para o fazerem) verificarão que sou advogado estagiário. Sim, é verdade. E tenho orgulho em sê-lo (apesar de preferir que o epíteto "estagiário" desaparecesse).
No escritório onde actualmente trabalho, os nossos constituintes são maioritariamente Bancos e Instituições Financeiras.
Assim que lá entrei, há sensivelmente dois anos, e após o período de formação, as minhas primeiras tarefas consistiram em intentar providências cautelares, as quais encontravam o seu fundamento no incumprimento de contratos de crédito celebrados para aquisição de veículos.
Bom, até aqui tudo bem. De facto, poucas pessoas existirão que tenham possibilidade de adquirir um automóvel sem recurso a crédito.
Mas infelizmente, acidentes acontecem: as pessoas perdem os seus empregos, há sempre alguém que adoece e o dinheiro é necessário para a cura... Enfim... Todos nós temos os nossos problemas.
Feita esta breve introdução ao assunto que hoje aqui me traz, cumpre realizar:
As providências cautelares que intentei visavam a recuperação de veículos, os quais, na sua grande maioria eram de grande cilindrada (e por grande cilindrada quero significar Porche Cayenne e afins).
Coloco agora uma questão: se as pessoas não têm dinheiro para pagar estes automóveis, porque é que os compram?
E agora, respondo: A crise de valores que hoje vivemos supera em larga escala a crise económica.
Ou, dito de outra forma, os valores que são incutidos e observados pela maioria das pessoas são fundamentalmente económicos, i. e., externos, vazios de sentido, em detrimento de valores daqueles que podem criar pessoas melhores.
De facto, é crescente o número de pessoas que cultiva a aparência, negligenciando o carácter, o civismo, o respeito pelo próximo, a justiça, enfim... valores que nos poderiam transformar a todos em pessoas melhores.
Aliás, cada vez mais, o mais importante na nossa sociedade é: o carro que conduzimos; o telemóvel que usamos; e a marca do fato que vestimos. Mas no entanto, a grande maioria das pessoas que cultivam estes "princípios", são incapazes de dizer um simples bom dia a um empregado de uma loja. Se quiserem analisar convenientemente esta questão, bastará darem um saltinho ao El Corte Inglês. Frequentes são as vezes que, enquanto estão a falar com um empregado, uma senhora coberta de ouro, interpela o mesmíssimo empregado, interrompendo-vos, e sem sequer lhe dizer bom dia ou até um obrigado. Eu percebo... Depois de duas horas a falar aos berros no meio do corte inglês naquele telefone de Eur. 1 500,00, que estará pago em 2012, torna-se complicado articular algumas palavras. Lamentavelmente, são sempre aquelas palavras que demonstram boa educação e respeito... Mas isso não interessa. Desde que se tenha um BMW adquirido a leasing, um telemóvel que demorará 7 anos a pagar e um vestido da Versace apertadíssimo, é uma pessoa de bem.
Lembrei-me agora de outra coisa que é importantíssima para se aferir do status de uma pessoa: cartão do corte inglês. Não me entendam mal. Não condeno quem o tem. Refiro-me apenas àquelas pessoas que o utilizam abusivamente para compras supérfluas, simplesmente porque é sepê bem comprar mais caro... Lamento, mas complica-me o sistema. E de tal forma assim é que, há dias, fui comprar um aquário para a minha tartaruga, e uma senhora dirigiu-se a mim e à minha namorada e perguntou-nos: "Os senhores já têm cartão do El Corte Inglês?", ao que nós respondemos: "Não.". Bom, não vos passa pela cabeça a cara que a senhora fez e o olhar que nos lançou. Mas foi ainda pior quando, após nos perguntar se estaríamos interessados em subscrever o tal cartão, lhe respondemos que não. Nessa altura apercebemo-nos que estávamos completamente fora "daquele círculo". Nunca seremos "bem"...
Eu concordo que utilizem cartões de crédito. Fazem falta, é um facto. Causa-me alguma confusão é que o façam de forma insustentada e insustentável.
Mas enfim, são estes os valores que actualmente acompanham a nossa sociedade.
Cá eu, tentarei sempre ser respeitador e educado. Se pelo caminho tiver oportunidade de adquirir um BMW (em particular o 123, adoro), também agradeço.
Mas ainda vos posso dizer mais. Durante um ano sensivelmente, fui operador de caixa numa loja de bricolage (e sim, com o mesmo orgulho com que sou advogado estagiário). Não vos passa pela cabeça a quantidade de pessoas mal formadas que por ali passavam, mas que se arrogavam no direito de o serem, simplesmente por não estarem do lado de dentro da caixa. Era de tal forma, que sempre que um amigo meu se dirigia à minha caixa e me perguntava pelo meu curso de direito, a pessoa que eu estava a atender, mudava imediatamente de atitude... Mas, o que vale, e apesar dos princípios e valores destas pessoas serem o que são, iam para casa no seu BMW...
Acho bem que toda a gente tenha um BMW, um Mercedes, um Audi. Mas considero mais importante dar-se prioridade à humanidade, ao civismo, ao respeito...
Meus amigos, deixo-vos com os votos de que todos nós sejamos justos com o próximo, respeitadores dos nossos vizinhos, e honestos para connosco.